COLUNISTAS
O preço da autoexploração na era do desempenho 19/12/2025
O comentário e o diagnóstico tornaram-se recorrentes: exaustão, cansaço, falta de tempo. Vivemos sob a égide de uma fadiga crônica, um esgotamento que ultrapassa a dimensão física e passa a habitar a alma coletiva.
Essa sensação, tão presente na vida contemporânea, é qualitativamente distinta do esgotamento vivenciado por gerações passadas. Não decorre, majoritariamente, da luta contra a pobreza ou da repressão externa, mas de uma pressão interna avassaladora voltada à performance, à produtividade e à otimização permanente de si mesmo.
A transposição para um ritmo frenético fez com que tarefas laborais, domésticas e pessoais se tornassem, consciente ou inconscientemente, deveres ininterruptos. Exige-se do indivíduo a execução constante e a dedicação irrestrita a tudo o que é novo, imediato e mensurável no cotidiano.
Surge, assim, a chamada era do desempenho, marcada por espaços abertos, digitalmente interligados, onde imperam os discursos do “poder” e da “possibilidade”. Somos continuamente estimulados pela positividade do “nós podemos”: sejamos proativos, maximizemos nosso potencial, estejamos sempre disponíveis.
A grande virada histórica é que já não se trata mais da obediência, mas do desempenho. O trabalhador, o estudante e o cidadão não são mais coagidos por uma autoridade externa; tornam-se seus próprios exploradores, seus próprios algozes. A liberdade prometida pelo neoliberalismo - a de escolher e ser quem se quiser - converte-se, paradoxalmente, em uma obrigação tirânica de se autoexplorar. Quando falha, o indivíduo não culpa o sistema, mas a si mesmo, mergulhando na culpa, na frustração e na autodepreciação.
Se a patologia da disciplina tinha como base a histeria - a doença da repressão e da negação -, a patologia do desempenho é a doença do excesso: excesso de positividade, de estímulos, de informação e de exigência. Esse acúmulo sobrecarrega o sistema nervoso e dá origem a manifestações cada vez mais comuns, entre elas:
• Depressão: marcada pelo sentimento de incapacidade e pelo esgotamento de um sujeito que já não consegue “dar conta”. A autoagressão emerge quando, assolado pelo imperativo do desempenho, o indivíduo culpa a si mesmo pelo fracasso.
• Burnout (Síndrome do Esgotamento Profissional): mais do que cansaço, trata-se do colapso do ego do desempenho, no qual a pessoa se consome pela chama da autoexigência até restarem apenas cinzas.
• TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade): compreendido aqui como expressão de um excesso de foco e de multitarefas, em que a atenção se torna atomizada, hiperativa, porém incapaz de profundidade ou contemplação.
O ÓCIO E A NECESSIDADE DA PAUSA
Essa corrida incessante em direção ao desempenho produz um tipo de atenção dispersa. Exige-se a multitarefa contínua, instaurando uma atenção superficial, semelhante à de animais em estado permanente de alerta, mais voltados à sobrevivência imediata do que à contemplação. Tal dispersão inviabiliza a imersão, o aprofundamento e o pensamento criativo.
O que falta, portanto, é a capacidade do tédio profundo, do ócio contemplativo - a vita contemplativa. É nesse espaço que algo verdadeiramente novo pode nascer, desde que exista, de fato, a pausa.
A hiperatividade destrói esse tédio fecundo, essa inatividade que funciona como antecâmara da criação. Em um mundo que exige que a vida seja otimizada e cronometrada em frações de produtividade, a pausa deixa de ser mero descanso e passa a configurar um ato de resistência filosófica. Reconquistar a capacidade de não fazer nada - de silenciar o imperativo interno da performance - pode ser o primeiro passo para romper o ciclo vicioso da autoexploração e reencontrar a plenitude de um ser que não se define apenas por aquilo que produz.
Ainda há tempo.
Novas gerações surgem a cada instante, e é fundamental que estejam preparadas não apenas para o conhecimento, mas para uma forma mais humana de construir a vida - respeitando o tempo de cada etapa, sem submeter a existência a uma sucessão desordenada de metas e cobranças atemporais. Objetivos não alcançados não podem ser sinônimo automático de derrota ou fracasso.
Que consigamos, nos dias atuais, organizar a vida de forma mais salutar, mitigando os fatores e gatilhos que conduzem ao adoecimento, e criando caminhos que promovam harmonia entre ação e pausa. Que as exigências internas, quando existirem, sirvam ao nosso bem-estar e crescimento - nunca à autodegradação.
Um Feliz Natal a todos, com saúde, harmonia, leveza e paz no coração. Que o ano que se inicia traga discernimento e sabedoria para fazermos o que é certo, no momento certo.


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