COLUNISTAS

09/10/2026

O RECADO DAS URNAS - E O QUE 
LAGOA VERMELHA FARÁ COM ELE?
As urnas foram fechadas, os votos contados e os vencedores conhecidos. Agora começa uma etapa talvez mais importante do que a própria campanha eleitoral: entender o que Lagoa Vermelha disse através do voto e, principalmente, cobrar daqueles que receberam a confiança da população uma resposta concreta nos próximos quatro anos.
Nesta edição da Folha do Nordeste, o leitor encontrará números, tabelas, comparações e uma ampla radiografia das Eleições 2026. Portanto, não pretendo transformar este espaço em uma repetição de resultados. Quero olhar para aquilo que existe por trás deles.
E há muito para ser analisado.
Lagoa Vermelha mostrou novamente características eleitorais muito próprias. Há nomes capazes de concentrar milhares de votos e, simultaneamente, uma pulverização impressionante. Para deputado federal, 198 candidatos diferentes receberam pelo menos um voto no município. Para estadual, foram 174. Somados, 372 candidaturas diferentes foram lembradas pelos eleitores lagoenses.
Mais curioso ainda: 103 receberam exatamente um voto.
É a democracia em sua expressão mais ampla. Mas também um retrato interessante de como o voto se dispersa.
 
SANTINI: UMA VOTAÇÃO FORA DA CURVA
O resultado mais contundente da eleição proporcional em Lagoa Vermelha pertence a Ronaldo Santini (Podemos).
Foram 8.124 votos para deputado estadual. Sozinho, Santini recebeu 55,46% dos votos válidos destinados ao cargo no município.
Para dimensionar a diferença, Sandro do Covatti (PP) ficou em segundo, com 713 votos. Depois vieram Cleonice Back (PT), com 386; Adri Cherini (PL), com 357; e Paparico Bacchi (PL), com 328. A distância impressiona.
Existe uma diferença enorme entre simplesmente possuir raízes numa comunidade e conseguir transformar essa relação em confiança eleitoral. O eleitor não entrega mais de oito mil votos apenas por bairrismo.
Santini construiu, ao longo de sua trajetória, uma identificação política muito forte com Lagoa Vermelha. Sua reeleição, com 39.373 votos no Estado, reforça essa condição. Mas existe o outro lado: 8.124 votos também representam 8.124 razões para cobrar.
Quanto maior a confiança, maior deve ser a responsabilidade na devolução. Saúde, infraestrutura rodoviária, desenvolvimento econômico, agricultura, educação e tantas outras demandas regionais precisam permanecer na agenda do deputado.
Uma votação extraordinária não pode ser apenas um troféu eleitoral. Precisa virar força política.
 
OUTROS NOMES TAMBÉM 
DEIXARAM SEU RECADO
A sequência da votação estadual também merece atenção. Sandro do Covatti (PP) manteve presença eleitoral no município. Cleonice Back (PT) chegou à terceira posição. Adri Cherini (PL) e Paparico Bacchi (PL) completaram os cinco primeiros, demonstrando também a presença do Partido Liberal na disputa proporcional.
São votações muito inferiores à alcançada por Santini, evidentemente, mas importantes para compreender que Lagoa Vermelha não possui uma única porta de acesso à Assembleia Legislativa. E isso pode ser positivo.
Representação política não deveria funcionar com exclusividade. Se diferentes deputados receberam votos aqui, aqueles que conquistaram mandato podem - e devem - ser procurados quando os interesses de Lagoa Vermelha e da região estiverem em discussão.
 
RIETH VENCE EM LAGOA, 
MAS NÃO CONSEGUE A ELEIÇÃO
Se no estadual houve uma enorme concentração em torno de Santini, na eleição para deputado federal ocorreu praticamente o contrário.
Felippe Rieth (PDT) terminou na primeira colocação em Lagoa Vermelha, com 2.365 votos. Foi uma votação expressiva e um dos resultados que merecem maior atenção neste pleito.
Rieth superou Covatti Filho (PP), que recebeu 1.758 votos, e Maurício Marcon (PL), que chegou a 1.060. Na sequência aparecem Maurício Dziedricki (Podemos), com 955, e Giovani Cherini (PL), com 874 votos.
Há, entretanto, um aspecto fundamental nessa análise: mesmo sendo o candidato a deputado federal mais votado em Lagoa Vermelha, Felippe Rieth não conseguiu se eleger para a Câmara dos Deputados.
É uma demonstração bastante clara de como funciona uma eleição proporcional e de como uma votação local expressiva não necessariamente garante uma cadeira.
Rieth teve respaldo em sua terra, mas precisava transformar essa força regional em uma votação estadual suficiente para entrar na composição das cadeiras conquistadas por seu partido. Não aconteceu.
Isso não diminui o significado político dos 2.365 votos recebidos em Lagoa Vermelha. Ao contrário: mostra que havia uma base eleitoral local importante. Mas também expõe um desafio para qualquer candidatura regional que pretenda chegar a Brasília: Lagoa Vermelha sozinha não elege um deputado federal.
É preciso construir presença regional e estadual.
 
 
A DIFERENÇA ENTRE VOTAÇÃO 
LOCAL E RESULTADO ESTADUAL
O próprio resultado dos demais candidatos ajuda a demonstrar isso.
Maurício Marcon (PL) ficou apenas na terceira posição em Lagoa Vermelha, mas terminou a eleição como o deputado federal mais votado do Rio Grande do Sul. Giovani Cherini (PL), quinto colocado entre os lagoenses, também conquistou mandato.
Isso é política eleitoral na prática.
O ranking municipal conta uma história. O resultado estadual pode contar outra completamente diferente.
Por isso, talvez uma das lições deste pleito seja justamente a necessidade de ampliar a articulação regional quando Lagoa Vermelha ou os municípios próximos tiverem a pretensão de construir candidaturas próprias.
Ter candidato é uma coisa. Construir uma candidatura competitiva em todo o Estado é outra.
 
QUEM RECEBEU VOTO PRECISA 
LEMBRAR DE ONDE ELE VEIO
Chegamos então a uma pergunta incômoda, mas necessária.
Dos 198 candidatos a deputado federal que receberam votos em Lagoa Vermelha, quantos voltarão ao município durante os próximos quatro anos?
E não estou falando de voltar às vésperas da próxima eleição.
Estou falando de ouvir o Hospital São Paulo, entidades empresariais, produtores rurais, prefeitos, vereadores e lideranças comunitárias. De trabalhar por recursos, infraestrutura, saúde e projetos.
É muito fácil procurar Lagoa Vermelha quando existem votos disponíveis. O verdadeiro teste começa quando os votos já foram depositados.
O RECADO AO NOVO GOVERNO
Também é impossível ignorar a votação de Luciano Zucco (PL).
Foram 9.422 votos em Lagoa Vermelha, correspondendo a 65,74% dos votos válidos para governador. E o desempenho não ficou restrito ao município: Zucco venceu nos cinco municípios da 28ª Zona Eleitoral.
Portanto, quando o novo Governo do Estado olhar para esta região, encontrará uma comunidade que lhe concedeu respaldo eleitoral expressivo.
Isso precisa significar alguma coisa.
Não estou falando de privilégios. Estou falando de representação e de capacidade política para colocar as reivindicações regionais sobre a mesa.
Lagoa Vermelha precisa saber transformar apoio eleitoral em capacidade de reivindicação.
 
FOTOGRAFIA COM 
ELEITO NÃO É CONQUISTA
Aqui talvez esteja uma crítica necessária.
Nos próximos meses veremos muitas fotografias de lideranças locais com deputados, senadores e integrantes do novo governo. Ótimo.
Mas fotografia não tapa buraco em rodovia. Fotografia não instala serviço de saúde. Fotografia não gera emprego. Fotografia não libera recurso.
O que interessa é aquilo que acontece depois dela.
Liderança política não se mede pelo número de autoridades que alguém consegue colocar ao seu lado numa fotografia. Mede-se pelas portas que consegue abrir e, principalmente, pelo que consegue trazer através dessas portas.
 
A ELEIÇÃO TERMINOU. 
A POLÍTICA, NÃO
Temos um hábito que precisa mudar: acompanhamos intensamente a eleição e pouco o mandato.
Sabemos pesquisas, percentuais, carreatas, apoios e resultados. Depois da posse, muitas vezes deixamos de acompanhar como o parlamentar votou, quais recursos destinou, quais projetos defendeu e quantas vezes esteve presente na região.
Precisamos inverter essa lógica.
A urna não encerra a responsabilidade do cidadão. Ela inaugura uma nova responsabilidade.
E aqueles que conquistaram votações expressivas também não podem interpretar confiança como cheque em branco.
 
AGORA É HORA DE LAGOA VERMELHA
Passado o calor eleitoral, prefeito, vice-prefeito, vereadores, deputados, entidades empresariais, produtores rurais, sindicatos, instituições e demais lideranças deveriam construir uma agenda regional objetiva. 
Quais são nossas cinco grandes prioridades? Não vinte. Não cinquenta. Cinco.
E colocá-las sobre a mesa de Ronaldo Santini (Podemos), dos deputados federais eleitos que receberam nossos votos, dos senadores e de Luciano Zucco (PL), eleito governador.
Porque campanha termina. Mandato começa.
Daqui a quatro anos, muitos retornarão. Haverá novamente abraços, reuniões, fotografias, promessas e pedidos de apoio.
Quando isso acontecer, Lagoa Vermelha deveria estar preparada para fazer uma pergunta muito simples: “Você recebeu nossos votos. O que fez por Lagoa Vermelha?”
Se conseguirmos fazer essa pergunta acompanhada de números, obras, recursos e compromissos assumidos quatro anos antes, teremos avançado não apenas eleitoralmente.
Teremos amadurecido politicamente.

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