COLUNISTAS
17/04/26
ENTRE ALIANÇAS, RUPTURAS
E REPOSICIONAMENTOS
O tabuleiro político do Rio Grande do Sul começa a se reorganizar com maior nitidez rumo às eleições de 2026. Movimentações partidárias, reposicionamentos ideológicos e disputas internas revelam que o próximo pleito não será apenas mais uma eleição - será, sobretudo, um momento de redefinição de forças.
Neste contexto, a entrevista que realizamos com o ex-prefeito de Lagoa Vermelha e integrante da executiva municipal do MDB, Paulo Andrade, ganha relevância não apenas pelo conteúdo, mas pela densidade de quem acompanha a política há décadas e compreende seus ciclos.
Mais do que respostas, Andrade entrega leitura.
GABRIEL SOUZA, PREPARAÇÃO
OU CONTINUIDADE EM TESTE?
Ao projetar o nome de Gabriel Souza como possível candidato ao governo do Estado, Paulo Andrade não se limita a um apoio político. Ele constrói uma defesa baseada em trajetória e experiência administrativa.
A questão central, no entanto, vai além da preparação: Gabriel representa continuidade ou terá capacidade de imprimir identidade própria?
Andrade aposta na primeira hipótese como virtude. Para ele, o conhecimento acumulado na atual gestão coloca o vice-governador em vantagem. Mas o eleitorado, historicamente, cobra mais do que continuidade - cobra posicionamento.
E este será, talvez, o maior desafio: transformar experiência em liderança própria.
GESTÃO FISCAL ESTRUTURADA,
MAS O DESAFIO É PERMANENTE
Na análise apresentada por Paulo Andrade, o reconhecimento ao governo Eduardo Leite passa, inevitavelmente, pela reorganização fiscal. Um Estado que atrasava salários e acumulava déficits passou a apresentar estabilidade e capacidade de investimento.
Mas a análise não pode parar aí.
O avanço na atração de investimentos, especialmente na cadeia da celulose e na industrialização da produção agrícola, demonstra uma mudança de mentalidade: deixar de ser exportador de matéria-prima e passar a agregar valor.
Ainda assim, o desafio permanece estrutural. Crescer com sustentabilidade, reduzir desigualdades regionais e preparar o Estado para uma economia cada vez mais tecnológica não são tarefas concluídas - são processos em andamento.
E, nesse cenário, como ressalta Andrade, a inteligência artificial surge não como tendência, mas como realidade iminente.
RUPTURAS, OPORTUNISMO
OU SOBREVIVÊNCIA POLÍTICA?
A saída de partidos da base governista expõe uma prática antiga, mas que ganha novos contornos: a antecipação eleitoral.
Paulo Andrade trata com naturalidade. E, de fato, a história política do Rio Grande do Sul confirma esse comportamento.
Mas há um elemento que intensifica esse movimento: a polarização nacional. Segundo ele, hoje não basta estar em um governo estadual. É preciso estar alinhado a um projeto nacional. E isso tensiona alianças, expõe contradições e acelera rompimentos.
A pergunta que se impõe não é mais “quem estará junto”, mas “em que lado cada um estará”.
MDB ENTRE A HISTÓRIA E A
NECESSIDADE DE REINVENÇÃO
Talvez nenhuma manifestação de Paulo Andrade seja tão simbólica quanto a que trata do MDB. Um partido que carrega o peso da história - redemocratização, SUS, lutas sociais - hoje se vê diante de um dilema contemporâneo: como manter identidade em um cenário fragmentado?
Andrade reconhece a divisão interna. Não há tentativa de suavizar. Há, sim, um diagnóstico claro: o MDB não é mais um bloco homogêneo.
No interior, conforme destaca, a inclinação é mais conservadora. Em outros setores, há divergências. E no meio disso tudo, um partido que precisa decidir o que quer ser.
O risco não é apenas perder eleição. É perder identidade.
LAGOA VERMELHA E A
PERDA DE ESPAÇO POLÍTICO
Ao trazer a análise para o cenário local, Paulo Andrade adota um tom ainda mais direto.
A ausência de representação do MDB na Câmara de Vereadores não é apenas um dado político - é um sintoma.
Sintoma de desgaste, de falta de renovação e, principalmente, de desconexão com o eleitorado.
Ele aposta na história do partido, nas suas raízes e na presença de lideranças tradicionais como base para uma possível reconstrução. Mas reconhece, implicitamente, que isso por si só não será suficiente.
O LEGISLATIVO EM XEQUE,
CUSTO, FUNÇÃO E DISTORÇÕES
O debate sobre os vereadores talvez seja o ponto mais sensível - e também o mais necessário.
A discussão foi ampliada a partir de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), que é apresentada pelo deputado federal Amom Mandel (Cidadania-AM). A proposta prevê transformar vereadores de cidades com até 30 mil habitantes em “conselheiros”, sem salário fixo, passando a receber apenas ajuda de custo por sessão. Lagoa Vermelha e outros municípios da região seriam atingidos.
Segundo o parlamentar, a medida visa ampliar a fiscalização, garantir mais espaço às minorias e alterar a lógica de funcionamento das câmaras municipais, inclusive com mudanças no sistema de repasses de recursos.
O contexto chama atenção. O próprio autor da proposta, com experiência como vereador, tem feito críticas duras ao modelo atual, evidenciando uma insatisfação que não é apenas externa, mas também interna ao sistema político.
Diante desse cenário, Paulo Andrade traz uma análise baseada em vivência. Ex-vereador na década de 1970, relembra um período em que não havia salário fixo, mas uma atuação mais direta e comunitária.
Na sua avaliação, o Legislativo cresceu - e cresceu muito. Estrutura, cargos, custos e o que define como “penduricalhos” passaram a fazer parte de uma realidade que, muitas vezes, se distancia da população.
Ele reconhece que a remuneração atual permite maior dedicação ao mandato, mas provoca uma reflexão central: o modelo atual está entregando resultados proporcionais ao custo?
E vai além ao sugerir que recursos do Legislativo poderiam ser direcionados para ações práticas no município, aproximando ainda mais o poder público da realidade da comunidade.
ENTRE A VOCAÇÃO PÚBLICA E A
PROFISSIONALIZAÇÃO DA POLÍTICA
Na leitura de Paulo Andrade, há um ponto implícito, mas fundamental.
Quando o mandato passa a ser remunerado, ele deixa de ser apenas vocação e passa a ser também profissão. Isso traz ganhos - dedicação, disponibilidade, qualificação - mas também riscos: dependência do cargo, distanciamento da realidade e foco na manutenção do mandato.
O equilíbrio entre esses dois mundos, segundo ele, é um dos maiores desafios da política contemporânea.
EVOLUÍMOS OU APENAS
EXPANDIMOS A ESTRUTURA?
A comparação entre o Legislativo do passado e o atual não é saudosismo - é análise.
Paulo Andrade observa que, antes, havia menos estrutura e mais objetividade. Hoje, há mais estrutura, porém também mais complexidade.
A questão não é defender o passado, mas compreender se o crescimento da máquina pública veio acompanhado de eficiência.
E essa é uma pergunta que permanece em aberto.
UMA MENSAGEM QUE ECOA
ALÉM DO PARTIDO
Ao final da entrevista, Paulo Andrade faz um chamado à unidade do MDB, mas sua mensagem ultrapassa os limites partidários.
Ele defende o resgate de bandeiras históricas, como saúde, educação e assistência social, além de reforçar o papel do partido na construção de políticas públicas estruturantes.
Por fim, deixa um alerta pertinente ao momento atual: a necessidade de formar pensamento próprio em meio ao excesso de informações superficiais.
TROFÉU IMPRENSA 2026: PALCO DE
RECONHECIMENTO E PRESENÇA POLÍTICA
A realização da 26ª edição do Troféu Imprensa 2026, no Clube Comercial, mais uma vez reafirmou o evento como um dos principais momentos de valorização de lideranças e segmentos da sociedade regional.
Reunindo dezenas de homenageados, o evento também se consolidou como espaço de encontro político - algo natural diante da representatividade dos agraciados e da presença de lideranças.
Entre os destaques, a presença do deputado estadual Ronaldo Santini, ex-secretário de Turismo do Rio Grande do Sul, reforçando sua ligação com a região e sua projeção no cenário estadual.
Outro nome que chamou atenção foi Sandro do Covatti, liderança do Progressistas e pré-candidato a deputado estadual, evidenciando que o processo eleitoral de 2026 já começa a se desenhar, mesmo que de forma ainda inicial.
No âmbito regional, a presença do prefeito Eloir Morona, que recebeu distinção em nome do Progressistas, e da prefeita Marizete Rauta, do MDB, também laureada, demonstra o reconhecimento institucional às lideranças que hoje conduzem seus respectivos municípios.
O evento ainda prestou homenagem ao vereador Cleon Piva, do PL, destacando sua atuação no Legislativo.
Mais do que nomes, o Troféu Imprensa reafirma um conceito: reconhecer quem contribui com o desenvolvimento da comunidade.
E, ao mesmo tempo, evidencia algo que é inerente à política - a presença, o relacionamento e a construção de espaços.
Em um ano que antecede movimentos mais intensos no cenário eleitoral, encontros como este deixam de ser apenas sociais. Passam a ser também estratégicos.


Radar ON-LINE: