COLUNISTAS
Os “picolezeiros” sumiram - 20/03/2026
Quando aquela buzina característica era ouvida à média distância, já se sabia que ele iria passar pela frente da rua. Agilizava-se para pegar as notas de um real e as moedas que tinha na casa para realizar a compra. Quando a buzina novamente era apertada, e o som tornava-se mais forte ainda que a buzinada anterior, era hora de ir para a rua esperar ou “atacar” aquele trabalhador que todos conheciam em Lagoa como “o picolezeiro”.
Às vezes ele era jovem e às vezes de mais idade, mas sempre pilotando o seu carrinho refrigerado e recheado de picolés e sorvetes. Nunca entendi se ele era funcionário da sorveteria ou se comprava os gelados e revendia, ficando com algum lucro. A questão é que na cidade havia muitos deles, e muito mais numerosos nos dias mais quentes da primavera e do verão. Os “picolezeiros” eram a expressão do trabalho duro, da dedicação e da vontade de trabalhar.
Hoje, no entanto, eles são escassos. Raramente se ouve aquela buzina típica. Os carrinhos, tais quais existiam tempos atrás, nem sei mais se são utilizados para vender picolés e sorvetes. O desejo por um gelado permanece na população, mas os trabalhadores sumiram. São outros tempos.
Uma vez eu li na internet um comentário de uma proprietária de sorveteria, que dizia que o sumiço dos vendedores de picolé ocorreu porque há uma outra lógica do trabalho agora, e que inclusive muitas pessoas teriam vergonha de fazer esse serviço de venda. Os tempos realmente mudaram porque não havia nada de vergonhoso ou humilhante ser “picolezeiro”, e tenho certeza de que muita gente mantinha o sustento da família com esse trabalho, que era completamente digno. Nossa reverência aos antigos e aos raros (e atuais) “picolezeiros”!


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