COLUNISTAS

História das alpargatas 14/11/2025

As alpargatas, como as conhecemos hoje, surgiram por volta do século XIV (c. 1300), na região dos Pireneus - área basca entre a França e a Espanha - abrangendo a Occitânia francesa e a região catalã espanhola. O termo espadrille tem origem francesa, enquanto alpargata deriva do espanhol. Apesar disso, o uso da planta esparto para o trançado dos solados começou em território espanhol.
Desde seu nascimento, a alpargata foi um calçado democrático: utilizada por infantarias de reis, sacerdotes, camponeses e também em danças tradicionais catalãs, nas quais as fitas eram amarradas aos tornozelos.
 
Expansão pelo mundo
Durante cerca de quatro séculos, seu uso se restringiu à região dos Pireneus. Por volta do início do século XIX, as alpargatas começaram a ser exportadas para a América do Sul e outros continentes, tornando-se cada vez mais populares. Entre seus grandes adeptos estavam artistas modernistas como Pablo Picasso e Salvador Dalí.
Na Espanha, ficaram conhecidas também como esparteñas, feitas com lona e solado de esparto ou cânhamo, podendo ser ajustadas com ou sem fitas. Com o tempo, o solado passou a receber uma fina camada de borracha para aumentar a durabilidade e a proteção.
 
Tradição cultural
Ainda hoje, fazem parte dos trajes típicos de diversas regiões:
• Antiga Coroa de Aragão: Aragão, Catalunha, Comunidade Valenciana e Ilhas Baleares
• País Basco, Navarra e o País Basco francês
• Occitânia (sul da França), com forte tradição na cidade produtora de Mauleón
• Múrcia e Almería
Além disso, mantêm grande uso popular no verão como calçado leve e informal.
 
No Cone Sul e a vida campeira
As alpargatas chegaram ao Rio da Prata na década de 1830, trazidas por imigrantes espanhóis e franceses bascos.
Logo foram adotadas pelos trabalhadores rurais, substituindo a bota de garrão de potro, e tornaram-se inseparáveis da bombacha, difundindo-se entre homens e mulheres.
Na Argentina, tornaram-se símbolo do gaúcho e das classes humildes. Ganharam até caráter político durante o governo de Juan Domingo Perón, com os lemas:
“Não à ditadura das alpargatas”
“Alpargatas, sim; livros, não”
A famosa Fábrica Argentina de Alpargatas popularizou o calçado com seus almanaques ilustrados por Florencio Molina Campos. No Uruguai, na antiga República Rio-Grandense (atual Rio Grande do Sul) e no Chile, são amplamente usadas no verão, em atividades ao ar livre e no cotidiano campeiro. Na Colômbia, fazem parte de vários trajes folclóricos, havendo versões inclusive em couro.
 
Uma origem 
ainda mais remota
Há quem defenda que as alpargatas descendem de sandálias egípcias, que inspiraram os romanos a desenvolver calçados fechados capazes de proteger os pés do sol e do calor. 
Posteriormente, missionários teriam levado esse tipo de calçado à Espanha e, depois, à América, onde acompanhou camponeses e dançarinos em longas jornadas sob sol e chuva.
 
Por que se 
popularizaram tanto?
• Leves e confortáveis
• Permitem que o pé respire
• Moldam-se ao formato do pé
• Têm boa aderência ao solo
• Produção simples e acessível
Resultado: um calçado popular, funcional e carregado de identidade cultural, que atravessou séculos sem perder relevância. Fonte: 80 anos de nossa História - Alpargatas (1987) | Mauro Ivan.

Outras colunas deste Autor