
O Hospital São Paulo vive um dos momentos mais decisivos de sua história. Em uma ampla reunião com vereadores e representantes da imprensa de Lagoa Vermelha, na terça-feira, 14 de julho, o diretor-superintendente Sérgio Lunardi abriu números da instituição, apresentou um diagnóstico inicial da situação financeira e anunciou um projeto de profunda mudança administrativa e institucional.
Com poucos dias de atuação efetiva à frente do hospital, Lunardi afirmou que seu compromisso vai além de administrar a crise imediata. A proposta é reorganizar financeiramente a instituição, revisar contratos, ampliar fontes próprias de receita, buscar investimentos e conduzir um processo para que o Hospital São Paulo construa uma nova estrutura institucional, diretamente ligada à comunidade de Lagoa Vermelha.
“Meu compromisso é devolver esse hospital para a comunidade de Lagoa Vermelha”, declarou.
Segundo Lunardi, a intenção é conduzir uma transição responsável e juridicamente segura, com a criação de uma associação hospitalar beneficente própria, dotada de CNPJ, Conselho Fiscal, Conselho Deliberativo e estrutura administrativa independente.
A proposta deverá envolver empresários, entidades de classe, lideranças e diferentes segmentos da comunidade.
DÉFICIT OPERACIONAL MÉDIO É ESTIMADO EM R$ 400 MIL POR MÊS
Durante a reunião, Lunardi apresentou um levantamento elaborado a partir dos números dos primeiros cinco meses de 2026, entre janeiro e maio.
Conforme a apresentação feita pela direção, as receitas mensais do Hospital São Paulo oscilaram, aproximadamente, entre R$ 1,3 milhão e R$ 1,5 milhão no período analisado. As despesas operacionais ficaram próximas de R$ 1,7 milhão a R$ 1,8 milhão mensais.
A diferença representa, segundo o diagnóstico inicial apresentado pelo diretor, um déficit operacional médio estimado em aproximadamente R$ 400 mil por mês.
A partir da média dos primeiros meses do ano, Lunardi apresentou uma projeção segundo a qual o déficit operacional poderá se aproximar de R$ 4 milhões ao longo de 2026, caso o atual cenário seja mantido.
O diretor fez uma das mais fortes advertências da reunião.
“Se nós deixarmos do jeito que está, eu não dou seis meses para fecharmos o hospital.”
Lunardi ressaltou que a intenção não é provocar pânico na comunidade, mas demonstrar às lideranças e aos formadores de opinião a necessidade de medidas imediatas.
“É a instituição Hospital São Paulo que está dando o seu grito de socorro”, afirmou.
DÍVIDAS ATRASADAS CHEGAVAM A R$ 2,378 MILHÕES ATÉ MAIO
Na análise financeira apresentada durante o encontro, Lunardi informou que, até o final de maio, o Hospital São Paulo possuía aproximadamente R$ 2,378 milhões em compromissos atrasados.
Na mesma apresentação, o diretor apontou cerca de R$ 6,968 milhões registrados no contas a pagar da instituição, incluindo compromissos com vencimentos previstos.
Ao expor os dados aos vereadores e à imprensa, Lunardi mencionou que os valores apresentados alcançavam aproximadamente R$ 9,346 milhões quando considerados os compromissos atrasados e os demais valores demonstrados no contas a pagar.
Os números foram apresentados como parte do diagnóstico financeiro inicial realizado pela nova administração.
Segundo o diretor, o problema se agrava porque o déficit operacional mensal continua pressionando o caixa da instituição.
“Cada mês que fecha, eu tenho um déficit operacional em torno de R$ 400 mil”, explicou.
PROFISSIONAIS ACABAM FINANCIANDO PARTE DA OPERAÇÃO
Lunardi também abordou diretamente os atrasos nos pagamentos de prestadores de serviços e profissionais médicos.
Segundo o diretor, desde janeiro o hospital vinha conseguindo pagar aproximadamente 80% dos honorários médicos.
“Esses 20% são os médicos que estão financiando. Eles prestaram o serviço e não estão recebendo integralmente”, afirmou.
O diretor disse compreender as manifestações e cobranças dos profissionais.
“Quando os médicos reclamam e ameaçam fazer paralisação, eles têm razão. Eu não vou condenar”, declarou.
Na avaliação de Lunardi, quando o hospital não possui recursos para quitar integralmente médicos, laboratórios e outros prestadores, são esses profissionais e empresas que acabam suportando parte do desequilíbrio financeiro da operação.
“O PROBLEMA DO HOSPITAL TEM UMA PALAVRA: GESTÃO”
Sérgio Lunardi afirmou que não pretende fazer acusações sobre administrações anteriores sem antes conhecer profundamente documentos, contratos e procedimentos adotados ao longo dos últimos anos.
O novo diretor disse que, com base nos números analisados inicialmente, o principal problema identificado é administrativo.
“O problema do hospital tem uma palavra: gestão”, afirmou.
Lunardi utilizou diversas vezes a expressão “conta de padeiro” para explicar seu raciocínio.
“Entra tanto, sai tanto. Se entra menos do que sai, alguém está pagando essa conta”, resumiu.
Segundo ele, a recuperação da instituição passa obrigatoriamente por uma análise objetiva de receitas, despesas, contratos, custos operacionais e viabilidade econômica.
“Eu não tenho varinha mágica. Eu vou apontar os problemas, buscar caminhos e vou precisar de ajuda”, reconheceu.
HOSPITAL TEM FORTE DEPENDÊNCIA DE RECURSOS PÚBLICOS
Outro ponto destacado pela direção é a reduzida participação de receitas próprias na operação hospitalar.
Conforme os dados apresentados por Lunardi, o Hospital São Paulo trabalha com aproximadamente 90% de atendimento pelo Sistema Único de Saúde.
Ao mesmo tempo, os atendimentos particulares e por convênios representam uma parcela reduzida da movimentação da instituição.
Durante os primeiros cinco meses analisados, a direção apresentou aproximadamente R$ 325 mil em receitas relacionadas a atendimentos particulares e convênios.
Na avaliação de Lunardi, o hospital precisa desenvolver novas fontes de receita para alcançar maior equilíbrio econômico.
“O que dá receita nós terceirizamos. O atendimento gratuito nós puxamos para nós”, afirmou.
Segundo o diretor, serviços de diagnóstico estão entre as atividades que poderão ter papel estratégico na recuperação financeira da instituição.
HOSPITAL PRETENDE INVESTIR EM DIAGNÓSTICO
A criação de uma estrutura própria de diagnóstico está entre os projetos defendidos pela nova administração.
Atualmente, conforme explicou Lunardi, diferentes serviços são terceirizados.
O diretor entende que áreas como tomografia, ultrassonografia, mamografia e outros exames poderão contribuir para ampliar a geração de receitas próprias.
“Nós temos que ter o nosso diagnóstico”, afirmou.
Para viabilizar investimentos, Lunardi pediu aos vereadores que auxiliem na articulação junto a deputados estaduais, federais e demais representantes políticos.
“Tragam os deputados para dentro do hospital. Independente do partido, nós vamos receber todos”, declarou.
O diretor ressaltou que sua atuação terá caráter técnico e afirmou não pretender estabelecer distinções político-partidárias.
“Eu não quero o partido de vocês. Eu quero o trabalho de vocês e a influência que vocês têm para abrir portas”, disse aos vereadores.
EMENDAS PARLAMENTARES SÃO IMPORTANTES, MAS NÃO REPRESENTAM RECEITA FIXA
Lunardi reconheceu a importância das emendas parlamentares para o Hospital São Paulo, especialmente diante da necessidade imediata de recursos.
Entretanto, alertou que esses valores não podem ser considerados uma fonte permanente de receita operacional.
Na apresentação, o diretor citou a entrada de aproximadamente R$ 283 mil em emendas em fevereiro e cerca de R$ 651 mil em março.
Ao incluir esses recursos na demonstração, apenas o mês com maior volume de emendas apresentou resultado positivo.
“Eu teria que ter R$ 500 mil de emenda parlamentar todos os meses para poder resolver o problema”, exemplificou.
Em seguida, questionou:
“E o mês que não tiver?”
Na visão da nova direção, o objetivo futuro deve ser alcançar equilíbrio econômico suficiente para que as emendas parlamentares sejam direcionadas prioritariamente a investimentos e projetos estruturantes.
TOMOGRAFIAS EXEMPLIFICAM O DESEQUILÍBRIO ENTRE RECEITA E CUSTO
Os números relacionados às tomografias foram apresentados por Lunardi como um dos exemplos do desequilíbrio operacional existente no hospital.
Segundo o diretor, a contratualização do SUS prevê aproximadamente R$ 22 mil mensais para a realização de tomografias.
Os custos efetivos do serviço, entretanto, podem alcançar aproximadamente R$ 59 mil mensais.
Na demonstração apresentada durante a reunião, Lunardi apontou uma diferença acumulada próxima de R$ 223 mil entre os valores recebidos e os custos do serviço no período analisado pela direção.
“Se eu faço uma tomografia além do contratado, alguém precisa pagar. O paciente fez o exame e foi embora. O hospital precisa pagar o prestador, mas ninguém pagou esse exame ao hospital”, explicou.
Segundo Lunardi, a consequência aparece diretamente no contas a pagar da instituição.
EXAMES LABORATORIAIS TAMBÉM APRESENTAM DESEQUILÍBRIO
Situação semelhante foi apresentada em relação aos exames laboratoriais.
Conforme Lunardi, o Hospital São Paulo recebe recursos da contratualização do SUS e também valores previstos em contrato com o Município de Lagoa Vermelha para custear exames.
Na exposição feita aos vereadores e à imprensa, o diretor apontou aproximadamente R$ 332 mil em receitas destinadas ao serviço no período considerado pela apresentação.
Os custos foram superiores, resultando, segundo os números demonstrados por Lunardi, em uma diferença operacional próxima de R$ 114 mil.
Ao projetar os desequilíbrios observados nos serviços de tomografia e laboratório, a direção estimou que esses dois itens poderão representar aproximadamente R$ 676 mil de déficit operacional anual.
URGÊNCIA E EMERGÊNCIA REGISTRA CERCA DE 2,4 MIL ATENDIMENTOS POR MÊS
A utilização do setor de urgência e emergência também foi amplamente debatida.
Segundo os dados apresentados pela direção, aproximadamente 2,4 mil atendimentos são realizados mensalmente no setor.
Na avaliação preliminar de Lunardi, uma parcela significativa das situações atendidas não corresponde necessariamente a casos efetivos de urgência ou emergência, podendo estar relacionada à atenção básica.
O diretor defendeu uma discussão mais ampla sobre a utilização dos serviços públicos de saúde.
“É uma mudança cultural. Não é culpa da população, do médico, do hospital ou do prefeito”, afirmou.
Segundo Lunardi, será necessário organizar fluxos e desenvolver um trabalho de conscientização, sem retirar da população o direito ao atendimento.
INTERNAÇÕES PARTICULARES E CONVÊNIOS TÊM BAIXA PARTICIPAÇÃO
O Hospital São Paulo registra uma média aproximada de 140 a 150 internações mensais, conforme os números apresentados pela direção.
Entretanto, as internações particulares e por convênios representam uma parcela reduzida.
A média mencionada durante a reunião foi de aproximadamente 37 internações particulares ou de convênios por mês.
Na avaliação de Lunardi, a atual estrutura física não estimula pacientes particulares a utilizarem o hospital.
O diretor defendeu investimentos em quartos, camas, colchões e na estrutura de internação.
Segundo ele, a ampliação de receitas próprias é necessária para ajudar a sustentar a operação hospitalar como um todo.
CARTÃO DE BENEFÍCIOS PODERÁ SER ESTUDADO
Durante o debate, surgiu também a possibilidade de criação de novos modelos de relacionamento entre o hospital e a comunidade.
Lunardi citou como exemplo o HospCard, implantado durante sua experiência em Marau.
O sistema funciona como um cartão de benefícios hospitalares. As famílias pagam uma mensalidade e possuem acesso a descontos em consultas, internações e determinados serviços.
“É como ser sócio de um clube”, explicou.
O diretor ressaltou que não existe, até o momento, uma decisão de implantar o mesmo modelo em Lagoa Vermelha.
A experiência foi apresentada como uma das alternativas que poderão ser analisadas.
“Existem vários modelos. Nós vamos olhar os que deram certo e estudar o que pode ser aplicado aqui”, afirmou.
CONTRATOS ESTÃO SENDO REVISTOS
Uma das primeiras medidas da nova administração é a revisão dos contratos existentes.
Segundo Lunardi, diferentes documentos de prestação de serviços, aluguéis e compromissos administrativos estão sendo analisados.
“Estou revisando todos os contratos”, confirmou.
Um dos exemplos apresentados envolve o serviço médico da emergência.
Segundo o diretor, o custo atual é de aproximadamente R$ 150 por hora médica.
Lunardi citou instituições de municípios como Marau, Sananduva e Tapejara, onde, conforme sua exposição, os valores ficam próximos de R$ 117 a R$ 120 por hora.
A direção iniciou negociação para reduzir custos.
Caso não seja possível manter o atual modelo de prestação do serviço dentro dos valores considerados viáveis, o hospital poderá assumir diretamente a organização da escala e a contratação dos médicos.
Lunardi ressaltou que a discussão é financeira e não representa crítica à qualidade da equipe que atualmente presta o serviço.
HEMODIÁLISE: PROJETO SERÁ AVALIADO DURANTE 90 DIAS
Sérgio Lunardi também esclareceu a decisão administrativa de suspender temporariamente investimentos e procedimentos relacionados a determinados projetos do hospital.
Entre os temas analisados está a estrutura de hemodiálise.
O diretor afirmou que a medida é estritamente técnica.
“Eu não cancelei nada. Suspendi por 90 dias para estudar”, explicou.
A direção pretende avaliar os investimentos já realizados, os recursos recebidos, equipamentos, valores ainda disponíveis, despesas pendentes e, principalmente, o custo futuro de funcionamento do serviço.
“Não adianta eu receber R$ 200 mil por mês e o serviço custar R$ 250 mil. Eu vou repetir o mesmo erro”, declarou.
Lunardi rejeitou qualquer interpretação de que a suspensão represente automaticamente suspeita de irregularidade.
Segundo ele, contratos, notas fiscais, projetos e investimentos precisarão ser analisados antes de qualquer conclusão.
“Eu seria irresponsável em falar sobre algo que ainda não conheço”, afirmou.
A direção decidirá sobre os próximos passos após a conclusão da análise técnica e financeira.
NOVA DIREÇÃO PROMETE TRANSPARÊNCIA
Ao longo da reunião, Sérgio Lunardi reforçou que pretende abrir os números da instituição.
“Os contratos estarão sobre a minha mesa para quem quiser olhar”, afirmou.
O diretor anunciou a intenção de realizar encontros periódicos com vereadores e imprensa.
A proposta é apresentar, a cada três meses, receitas, despesas, resultados das medidas administrativas e novos projetos.
“Quero chamar vocês a cada três meses e mostrar onde nós estávamos e onde estamos”, declarou.
Para Lunardi, a recuperação da credibilidade do Hospital São Paulo dependerá diretamente da transparência.
“A comunidade precisa acreditar. Mas, para sermos acreditados, nós precisamos passar credibilidade”, afirmou.
DIRETOR PRETENDE MORAR EM LAGOA VERMELHA
Sérgio Lunardi revelou ainda que pretende fixar residência em Lagoa Vermelha e participar diretamente da vida comunitária.
“Eu vou morar em Lagoa. Vou ser de Lagoa Vermelha e participar da comunidade”, disse.
O diretor afirmou que estará disponível no hospital para receber vereadores, lideranças e representantes de entidades.
Segundo Lunardi, compreender a cultura e a realidade local será fundamental para a construção do novo projeto institucional.
RECUPERAÇÃO PODERÁ EXIGIR PELO MENOS CINCO ANOS
Embora o processo de transição institucional possa avançar em um período estimado entre seis meses e um ano, Lunardi acredita que a recuperação administrativa, financeira, operacional e estrutural do Hospital São Paulo poderá exigir pelo menos cinco anos.
“Se começarmos agora, cinco anos é 2031. Se começarmos no ano que vem, é 2032. Se deixarmos mais um ano, é 2033”, alertou.
Para o diretor, adiar decisões poderá tornar o processo de recuperação ainda mais difícil.
“Agora é a hora. Esse é o momento”, afirmou.
“PRECISAMOS ESCOLHER ENTRE TER UM HOSPITAL OU NÃO TER NADA”
Ao final da reunião, Sérgio Lunardi reforçou a gravidade da situação, mas também afirmou acreditar na recuperação do Hospital São Paulo.
O diretor defendeu a união entre a instituição, Executivo, Legislativo, empresários, entidades, profissionais da saúde, imprensa e comunidade.
“Não existe possibilidade de mudarmos esse hospital se não tivermos união”, afirmou.
Lunardi reconheceu que não possui uma solução imediata.
“Eu não sou o salvador da pátria. Não tenho uma fórmula mágica”, declarou.
Entretanto, deixou claro que a instituição precisa iniciar imediatamente um processo de reorganização.
“Nós precisamos fazer uma opção entre termos um hospital ou não termos nada”, advertiu.
E reforçou:
“Se nós ouvirmos esse grito de socorro e ajudarmos, vamos sair juntos.”
A reunião realizada no Hospital São Paulo colocou publicamente sobre a mesa um diagnóstico preocupante, mas também marcou o anúncio de uma nova proposta de gestão.
A partir de agora, o desafio apresentado pela direção extrapola as paredes da instituição.
Nas palavras de Sérgio Lunardi, o objetivo é reorganizar o hospital, recuperar sua viabilidade e construir um novo vínculo com Lagoa Vermelha.
“Meu compromisso é devolver esse hospital para a comunidade de Lagoa Vermelha.”
Reportagem | Foto: Marcos Roberto Nepomuceno

O Hospital São Paulo vive um dos momentos mais decisivos de sua história. Em uma ampla reunião com vereadores e representantes da imprensa de Lagoa Vermelha, na terça-feira, 14 de julho, o diretor-superintendente Sérgio Lunardi abriu números da instituição, apresentou um diagnóstico inicial da situação financeira e anunciou um projeto de profunda mudança administrativa e institucional.
Com poucos dias de atuação efetiva à frente do hospital, Lunardi afirmou que seu compromisso vai além de administrar a crise imediata. A proposta é reorganizar financeiramente a instituição, revisar contratos, ampliar fontes próprias de receita, buscar investimentos e conduzir um processo para que o Hospital São Paulo construa uma nova estrutura institucional, diretamente ligada à comunidade de Lagoa Vermelha.
“Meu compromisso é devolver esse hospital para a comunidade de Lagoa Vermelha”, declarou.
Segundo Lunardi, a intenção é conduzir uma transição responsável e juridicamente segura, com a criação de uma associação hospitalar beneficente própria, dotada de CNPJ, Conselho Fiscal, Conselho Deliberativo e estrutura administrativa independente.
A proposta deverá envolver empresários, entidades de classe, lideranças e diferentes segmentos da comunidade.
DÉFICIT OPERACIONAL MÉDIO É ESTIMADO EM R$ 400 MIL POR MÊS
Durante a reunião, Lunardi apresentou um levantamento elaborado a partir dos números dos primeiros cinco meses de 2026, entre janeiro e maio.
Conforme a apresentação feita pela direção, as receitas mensais do Hospital São Paulo oscilaram, aproximadamente, entre R$ 1,3 milhão e R$ 1,5 milhão no período analisado. As despesas operacionais ficaram próximas de R$ 1,7 milhão a R$ 1,8 milhão mensais.
A diferença representa, segundo o diagnóstico inicial apresentado pelo diretor, um déficit operacional médio estimado em aproximadamente R$ 400 mil por mês.
A partir da média dos primeiros meses do ano, Lunardi apresentou uma projeção segundo a qual o déficit operacional poderá se aproximar de R$ 4 milhões ao longo de 2026, caso o atual cenário seja mantido.
O diretor fez uma das mais fortes advertências da reunião.
“Se nós deixarmos do jeito que está, eu não dou seis meses para fecharmos o hospital.”
Lunardi ressaltou que a intenção não é provocar pânico na comunidade, mas demonstrar às lideranças e aos formadores de opinião a necessidade de medidas imediatas.
“É a instituição Hospital São Paulo que está dando o seu grito de socorro”, afirmou.
DÍVIDAS ATRASADAS CHEGAVAM A R$ 2,378 MILHÕES ATÉ MAIO
Na análise financeira apresentada durante o encontro, Lunardi informou que, até o final de maio, o Hospital São Paulo possuía aproximadamente R$ 2,378 milhões em compromissos atrasados.
Na mesma apresentação, o diretor apontou cerca de R$ 6,968 milhões registrados no contas a pagar da instituição, incluindo compromissos com vencimentos previstos.
Ao expor os dados aos vereadores e à imprensa, Lunardi mencionou que os valores apresentados alcançavam aproximadamente R$ 9,346 milhões quando considerados os compromissos atrasados e os demais valores demonstrados no contas a pagar.
Os números foram apresentados como parte do diagnóstico financeiro inicial realizado pela nova administração.
Segundo o diretor, o problema se agrava porque o déficit operacional mensal continua pressionando o caixa da instituição.
“Cada mês que fecha, eu tenho um déficit operacional em torno de R$ 400 mil”, explicou.
PROFISSIONAIS ACABAM FINANCIANDO PARTE DA OPERAÇÃO
Lunardi também abordou diretamente os atrasos nos pagamentos de prestadores de serviços e profissionais médicos.
Segundo o diretor, desde janeiro o hospital vinha conseguindo pagar aproximadamente 80% dos honorários médicos.
“Esses 20% são os médicos que estão financiando. Eles prestaram o serviço e não estão recebendo integralmente”, afirmou.
O diretor disse compreender as manifestações e cobranças dos profissionais.
“Quando os médicos reclamam e ameaçam fazer paralisação, eles têm razão. Eu não vou condenar”, declarou.
Na avaliação de Lunardi, quando o hospital não possui recursos para quitar integralmente médicos, laboratórios e outros prestadores, são esses profissionais e empresas que acabam suportando parte do desequilíbrio financeiro da operação.
“O PROBLEMA DO HOSPITAL TEM UMA PALAVRA: GESTÃO”
Sérgio Lunardi afirmou que não pretende fazer acusações sobre administrações anteriores sem antes conhecer profundamente documentos, contratos e procedimentos adotados ao longo dos últimos anos.
O novo diretor disse que, com base nos números analisados inicialmente, o principal problema identificado é administrativo.
“O problema do hospital tem uma palavra: gestão”, afirmou.
Lunardi utilizou diversas vezes a expressão “conta de padeiro” para explicar seu raciocínio.
“Entra tanto, sai tanto. Se entra menos do que sai, alguém está pagando essa conta”, resumiu.
Segundo ele, a recuperação da instituição passa obrigatoriamente por uma análise objetiva de receitas, despesas, contratos, custos operacionais e viabilidade econômica.
“Eu não tenho varinha mágica. Eu vou apontar os problemas, buscar caminhos e vou precisar de ajuda”, reconheceu.
HOSPITAL TEM FORTE DEPENDÊNCIA DE RECURSOS PÚBLICOS
Outro ponto destacado pela direção é a reduzida participação de receitas próprias na operação hospitalar.
Conforme os dados apresentados por Lunardi, o Hospital São Paulo trabalha com aproximadamente 90% de atendimento pelo Sistema Único de Saúde.
Ao mesmo tempo, os atendimentos particulares e por convênios representam uma parcela reduzida da movimentação da instituição.
Durante os primeiros cinco meses analisados, a direção apresentou aproximadamente R$ 325 mil em receitas relacionadas a atendimentos particulares e convênios.
Na avaliação de Lunardi, o hospital precisa desenvolver novas fontes de receita para alcançar maior equilíbrio econômico.
“O que dá receita nós terceirizamos. O atendimento gratuito nós puxamos para nós”, afirmou.
Segundo o diretor, serviços de diagnóstico estão entre as atividades que poderão ter papel estratégico na recuperação financeira da instituição.
HOSPITAL PRETENDE INVESTIR EM DIAGNÓSTICO
A criação de uma estrutura própria de diagnóstico está entre os projetos defendidos pela nova administração.
Atualmente, conforme explicou Lunardi, diferentes serviços são terceirizados.
O diretor entende que áreas como tomografia, ultrassonografia, mamografia e outros exames poderão contribuir para ampliar a geração de receitas próprias.
“Nós temos que ter o nosso diagnóstico”, afirmou.
Para viabilizar investimentos, Lunardi pediu aos vereadores que auxiliem na articulação junto a deputados estaduais, federais e demais representantes políticos.
“Tragam os deputados para dentro do hospital. Independente do partido, nós vamos receber todos”, declarou.
O diretor ressaltou que sua atuação terá caráter técnico e afirmou não pretender estabelecer distinções político-partidárias.
“Eu não quero o partido de vocês. Eu quero o trabalho de vocês e a influência que vocês têm para abrir portas”, disse aos vereadores.
EMENDAS PARLAMENTARES SÃO IMPORTANTES, MAS NÃO REPRESENTAM RECEITA FIXA
Lunardi reconheceu a importância das emendas parlamentares para o Hospital São Paulo, especialmente diante da necessidade imediata de recursos.
Entretanto, alertou que esses valores não podem ser considerados uma fonte permanente de receita operacional.
Na apresentação, o diretor citou a entrada de aproximadamente R$ 283 mil em emendas em fevereiro e cerca de R$ 651 mil em março.
Ao incluir esses recursos na demonstração, apenas o mês com maior volume de emendas apresentou resultado positivo.
“Eu teria que ter R$ 500 mil de emenda parlamentar todos os meses para poder resolver o problema”, exemplificou.
Em seguida, questionou:
“E o mês que não tiver?”
Na visão da nova direção, o objetivo futuro deve ser alcançar equilíbrio econômico suficiente para que as emendas parlamentares sejam direcionadas prioritariamente a investimentos e projetos estruturantes.
TOMOGRAFIAS EXEMPLIFICAM O DESEQUILÍBRIO ENTRE RECEITA E CUSTO
Os números relacionados às tomografias foram apresentados por Lunardi como um dos exemplos do desequilíbrio operacional existente no hospital.
Segundo o diretor, a contratualização do SUS prevê aproximadamente R$ 22 mil mensais para a realização de tomografias.
Os custos efetivos do serviço, entretanto, podem alcançar aproximadamente R$ 59 mil mensais.
Na demonstração apresentada durante a reunião, Lunardi apontou uma diferença acumulada próxima de R$ 223 mil entre os valores recebidos e os custos do serviço no período analisado pela direção.
“Se eu faço uma tomografia além do contratado, alguém precisa pagar. O paciente fez o exame e foi embora. O hospital precisa pagar o prestador, mas ninguém pagou esse exame ao hospital”, explicou.
Segundo Lunardi, a consequência aparece diretamente no contas a pagar da instituição.
EXAMES LABORATORIAIS TAMBÉM APRESENTAM DESEQUILÍBRIO
Situação semelhante foi apresentada em relação aos exames laboratoriais.
Conforme Lunardi, o Hospital São Paulo recebe recursos da contratualização do SUS e também valores previstos em contrato com o Município de Lagoa Vermelha para custear exames.
Na exposição feita aos vereadores e à imprensa, o diretor apontou aproximadamente R$ 332 mil em receitas destinadas ao serviço no período considerado pela apresentação.
Os custos foram superiores, resultando, segundo os números demonstrados por Lunardi, em uma diferença operacional próxima de R$ 114 mil.
Ao projetar os desequilíbrios observados nos serviços de tomografia e laboratório, a direção estimou que esses dois itens poderão representar aproximadamente R$ 676 mil de déficit operacional anual.
URGÊNCIA E EMERGÊNCIA REGISTRA CERCA DE 2,4 MIL ATENDIMENTOS POR MÊS
A utilização do setor de urgência e emergência também foi amplamente debatida.
Segundo os dados apresentados pela direção, aproximadamente 2,4 mil atendimentos são realizados mensalmente no setor.
Na avaliação preliminar de Lunardi, uma parcela significativa das situações atendidas não corresponde necessariamente a casos efetivos de urgência ou emergência, podendo estar relacionada à atenção básica.
O diretor defendeu uma discussão mais ampla sobre a utilização dos serviços públicos de saúde.
“É uma mudança cultural. Não é culpa da população, do médico, do hospital ou do prefeito”, afirmou.
Segundo Lunardi, será necessário organizar fluxos e desenvolver um trabalho de conscientização, sem retirar da população o direito ao atendimento.
INTERNAÇÕES PARTICULARES E CONVÊNIOS TÊM BAIXA PARTICIPAÇÃO
O Hospital São Paulo registra uma média aproximada de 140 a 150 internações mensais, conforme os números apresentados pela direção.
Entretanto, as internações particulares e por convênios representam uma parcela reduzida.
A média mencionada durante a reunião foi de aproximadamente 37 internações particulares ou de convênios por mês.
Na avaliação de Lunardi, a atual estrutura física não estimula pacientes particulares a utilizarem o hospital.
O diretor defendeu investimentos em quartos, camas, colchões e na estrutura de internação.
Segundo ele, a ampliação de receitas próprias é necessária para ajudar a sustentar a operação hospitalar como um todo.
CARTÃO DE BENEFÍCIOS PODERÁ SER ESTUDADO
Durante o debate, surgiu também a possibilidade de criação de novos modelos de relacionamento entre o hospital e a comunidade.
Lunardi citou como exemplo o HospCard, implantado durante sua experiência em Marau.
O sistema funciona como um cartão de benefícios hospitalares. As famílias pagam uma mensalidade e possuem acesso a descontos em consultas, internações e determinados serviços.
“É como ser sócio de um clube”, explicou.
O diretor ressaltou que não existe, até o momento, uma decisão de implantar o mesmo modelo em Lagoa Vermelha.
A experiência foi apresentada como uma das alternativas que poderão ser analisadas.
“Existem vários modelos. Nós vamos olhar os que deram certo e estudar o que pode ser aplicado aqui”, afirmou.
CONTRATOS ESTÃO SENDO REVISTOS
Uma das primeiras medidas da nova administração é a revisão dos contratos existentes.
Segundo Lunardi, diferentes documentos de prestação de serviços, aluguéis e compromissos administrativos estão sendo analisados.
“Estou revisando todos os contratos”, confirmou.
Um dos exemplos apresentados envolve o serviço médico da emergência.
Segundo o diretor, o custo atual é de aproximadamente R$ 150 por hora médica.
Lunardi citou instituições de municípios como Marau, Sananduva e Tapejara, onde, conforme sua exposição, os valores ficam próximos de R$ 117 a R$ 120 por hora.
A direção iniciou negociação para reduzir custos.
Caso não seja possível manter o atual modelo de prestação do serviço dentro dos valores considerados viáveis, o hospital poderá assumir diretamente a organização da escala e a contratação dos médicos.
Lunardi ressaltou que a discussão é financeira e não representa crítica à qualidade da equipe que atualmente presta o serviço.
HEMODIÁLISE: PROJETO SERÁ AVALIADO DURANTE 90 DIAS
Sérgio Lunardi também esclareceu a decisão administrativa de suspender temporariamente investimentos e procedimentos relacionados a determinados projetos do hospital.
Entre os temas analisados está a estrutura de hemodiálise.
O diretor afirmou que a medida é estritamente técnica.
“Eu não cancelei nada. Suspendi por 90 dias para estudar”, explicou.
A direção pretende avaliar os investimentos já realizados, os recursos recebidos, equipamentos, valores ainda disponíveis, despesas pendentes e, principalmente, o custo futuro de funcionamento do serviço.
“Não adianta eu receber R$ 200 mil por mês e o serviço custar R$ 250 mil. Eu vou repetir o mesmo erro”, declarou.
Lunardi rejeitou qualquer interpretação de que a suspensão represente automaticamente suspeita de irregularidade.
Segundo ele, contratos, notas fiscais, projetos e investimentos precisarão ser analisados antes de qualquer conclusão.
“Eu seria irresponsável em falar sobre algo que ainda não conheço”, afirmou.
A direção decidirá sobre os próximos passos após a conclusão da análise técnica e financeira.
NOVA DIREÇÃO PROMETE TRANSPARÊNCIA
Ao longo da reunião, Sérgio Lunardi reforçou que pretende abrir os números da instituição.
“Os contratos estarão sobre a minha mesa para quem quiser olhar”, afirmou.
O diretor anunciou a intenção de realizar encontros periódicos com vereadores e imprensa.
A proposta é apresentar, a cada três meses, receitas, despesas, resultados das medidas administrativas e novos projetos.
“Quero chamar vocês a cada três meses e mostrar onde nós estávamos e onde estamos”, declarou.
Para Lunardi, a recuperação da credibilidade do Hospital São Paulo dependerá diretamente da transparência.
“A comunidade precisa acreditar. Mas, para sermos acreditados, nós precisamos passar credibilidade”, afirmou.
DIRETOR PRETENDE MORAR EM LAGOA VERMELHA
Sérgio Lunardi revelou ainda que pretende fixar residência em Lagoa Vermelha e participar diretamente da vida comunitária.
“Eu vou morar em Lagoa. Vou ser de Lagoa Vermelha e participar da comunidade”, disse.
O diretor afirmou que estará disponível no hospital para receber vereadores, lideranças e representantes de entidades.
Segundo Lunardi, compreender a cultura e a realidade local será fundamental para a construção do novo projeto institucional.
RECUPERAÇÃO PODERÁ EXIGIR PELO MENOS CINCO ANOS
Embora o processo de transição institucional possa avançar em um período estimado entre seis meses e um ano, Lunardi acredita que a recuperação administrativa, financeira, operacional e estrutural do Hospital São Paulo poderá exigir pelo menos cinco anos.
“Se começarmos agora, cinco anos é 2031. Se começarmos no ano que vem, é 2032. Se deixarmos mais um ano, é 2033”, alertou.
Para o diretor, adiar decisões poderá tornar o processo de recuperação ainda mais difícil.
“Agora é a hora. Esse é o momento”, afirmou.
“PRECISAMOS ESCOLHER ENTRE TER UM HOSPITAL OU NÃO TER NADA”
Ao final da reunião, Sérgio Lunardi reforçou a gravidade da situação, mas também afirmou acreditar na recuperação do Hospital São Paulo.
O diretor defendeu a união entre a instituição, Executivo, Legislativo, empresários, entidades, profissionais da saúde, imprensa e comunidade.
“Não existe possibilidade de mudarmos esse hospital se não tivermos união”, afirmou.
Lunardi reconheceu que não possui uma solução imediata.
“Eu não sou o salvador da pátria. Não tenho uma fórmula mágica”, declarou.
Entretanto, deixou claro que a instituição precisa iniciar imediatamente um processo de reorganização.
“Nós precisamos fazer uma opção entre termos um hospital ou não termos nada”, advertiu.
E reforçou:
“Se nós ouvirmos esse grito de socorro e ajudarmos, vamos sair juntos.”
A reunião realizada no Hospital São Paulo colocou publicamente sobre a mesa um diagnóstico preocupante, mas também marcou o anúncio de uma nova proposta de gestão.
A partir de agora, o desafio apresentado pela direção extrapola as paredes da instituição.
Nas palavras de Sérgio Lunardi, o objetivo é reorganizar o hospital, recuperar sua viabilidade e construir um novo vínculo com Lagoa Vermelha.
“Meu compromisso é devolver esse hospital para a comunidade de Lagoa Vermelha.”
Reportagem | Foto: Marcos Roberto Nepomuceno